{"id":322,"date":"2025-09-23T20:33:19","date_gmt":"2025-09-23T23:33:19","guid":{"rendered":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/?p=322"},"modified":"2025-09-23T18:04:19","modified_gmt":"2025-09-23T21:04:19","slug":"as-bets-e-os-novos-adictos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/322\/","title":{"rendered":"As bets e os novos adictos"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Geraldo Pinheiro, m\u00e9dico psiquiatra<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Para quem tem mais de 40 anos, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil lembrar as \u201csaudosas\u201d propagandas de cigarro. Homens altos, belos e bem-sucedidos, acompanhados por\u00a0 mulheres luxuriantes, de cabelos sedosos, desfilavam em cenas quase hollywoodianas portando cigarros ora nas m\u00e3os, ora nas bocas e \u00e9 claro que essas imagens e sugest\u00f5es de alto desempenho exerciam forte influ\u00eancia na mente dos poss\u00edveis consumidores de cigarro. \u201cTodos\u201d queriam ser como aquela personagem impactante e a ind\u00fastria do cigarro acreditava (com raz\u00e3o) no fen\u00f4meno da imita\u00e7\u00e3o e, desta forma, teve grande sucesso de vendas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o tempo passou e a compreens\u00e3o sobre os danos do cigarro \u2013 tanto os mentais como os n\u00e3o-mentais \u2013 se avolumaram de evid\u00eancias cient\u00edficas e leis foram desenvolvidas para paulatinamente tais propagandas desaparecerem.<br \/>\nFen\u00f4meno semelhante ocorreu com as bebidas alco\u00f3licas.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que, neste nicho, o apelo sexual tamb\u00e9m teve forte participa\u00e7\u00e3o propagand\u00edstica. Todavia, de forma semelhante ao que aconteceu com o cigarro, tamb\u00e9m surgiu uma legisla\u00e7\u00e3o que coibiu a veicula\u00e7\u00e3o de certas propagandas com alto teor ilus\u00f3rio ao consumidor.<\/p>\n<p>O cigarro cont\u00e9m milhares de subst\u00e2ncias nocivas ao organismo humano e a nicotina \u00e9 uma destas subst\u00e2ncias. Ela \u00e9 a respons\u00e1vel pela depend\u00eancia qu\u00edmica relacionada ao cigarro. O \u00e1lcool, de forma semelhante \u00e0 nicotina, tamb\u00e9m tem potencial de causar depend\u00eancia qu\u00edmica. A depend\u00eancia qu\u00edmica (conceito que ser\u00e1 melhor\u00a0 abordado em um outro artigo) n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico problema relacionado a essas subst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Existe uma s\u00e9rie de outras consequ\u00eancias nocivas relacionadas ao uso que podem estar presentes mesmo em quem n\u00e3o desenvolve o fen\u00f4meno da depend\u00eancia. Embora seja verdade que, a depender da predisposi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica de cada um, hist\u00f3ria de vida (incluindo hist\u00f3ria de relacionamentos sociais, traumas, cria\u00e7\u00e3o e rela\u00e7\u00e3o com os pais, etc) e do padr\u00e3o de consumo dessas subst\u00e2ncias, haver\u00e1 usu\u00e1rios que n\u00e3o desenvolver\u00e3o o fen\u00f4meno da depend\u00eancia e nem enfrentar\u00e3o problemas devido a elas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, j\u00e1 est\u00e1 mais do que demonstrado o alto potencial lesivo para a vida dos seres humanos que elas carregam. Nos tempos atuais, surgiu uma outra \u201csubst\u00e2ncia\u201d para colorir as propagandas. Astros do esporte, influenciadores bem sucedidos, personagens conhecidas e tidas<br \/>\ncomo de alto valor social, pululam as propagandas, tentando nos convencer a investir o nosso tempo e dinheiro em jogos online e nas bets (termo origin\u00e1rio do verbo ingl\u00eas to bet, que significa apostar).<\/p>\n<p>\u00c9 claro que o cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 o mesmo das propagandas da d\u00e9cada de 80 do cigarro, nem de bebidas; a assim chamada p\u00f3s-modernidade exige que tais \u201caperitivos\u201d sejam atualizados. O conceito de bem-sucedido se revira e os personagens tamb\u00e9m, mas a ideia \u00e9 a mesma de sempre: convencer o poss\u00edvel consumidor de que o produto que est\u00e1 sendo ali vendido \u00e9 importante para a sua vida.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia de sugest\u00e3o de imita\u00e7\u00e3o daquelas personagens bem-sucedidas \u00e9 um caminho que a ind\u00fastria de marketing h\u00e1 tempos sabe que \u00e9 eficaz para vender. O que talvez algumas pessoas n\u00e3o saibam \u00e9 que o jogo de apostas (e n\u00e3o apenas o jogo de apostas, mas tamb\u00e9m o jogo recreativo) pode se tornar um problema.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a Associa\u00e7\u00e3o Americana de Psiquiatria e a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, em seus respectivos documentos \u2013 Manual diagn\u00f3stico e estat\u00edstico dos transtornos mentais (na sua quinta vers\u00e3o, DSM-5) e Classifica\u00e7\u00e3o Internacional de Doen\u00e7as (na sua d\u00e9cima primeira vers\u00e3o, CID-11) \u2013 elaboram cap\u00edtulos para essa desordem: o assim chamado \u201ctranstorno do jogo\u201d. Dentre todos os problemas poss\u00edveis, acredito que, para o p\u00fablico em geral, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber, ao menos, a possibilidade de algu\u00e9m se endividar com o uso\u00a0 compulsivo (desorganizado) dos jogos com aposta. Talvez o leitor at\u00e9 conhe\u00e7a uma ou\u00a0 outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Entretanto, assim como o \u00e1lcool e o cigarro podem trazer problemas al\u00e9m dos sociais, o transtorno do jogo tamb\u00e9m pode faz\u00ea-lo. H\u00e1 algumas d\u00e9cadas que os neurocientistas se debru\u00e7am sobre o assunto. J\u00e1 est\u00e1 bem estabelecido que o comportamento cerebral \u2013 em n\u00edvel de redes de c\u00e9lulas e em n\u00edvel bioqu\u00edmico \u2013 de quem faz uso de cigarro e de \u00e1lcool \u00e9 muito semelhante ao de quem joga compulsivamente.<\/p>\n<p>Cada vez mais, a neuroci\u00eancia compreende que o jogo patol\u00f3gico promove efeitos semelhantes aos provocados por uma subst\u00e2ncia geradora de adic\u00e7\u00e3o (depend\u00eancia). Fen\u00f4menos como toler\u00e2ncia (necessidade de usar doses cada vez maiores para poder experimentar o efeito da subst\u00e2ncia) e s\u00edndrome de abstin\u00eancia (conjunto de sinais e sintomas relacionados \u00e0 suspens\u00e3o do uso de determinada subst\u00e2ncia), t\u00e3o comuns no cigarro e no \u00e1lcool, tamb\u00e9m est\u00e3o presentes nos transtornos do jogo.<\/p>\n<p>Dentre outras, h\u00e1 ainda uma semelhan\u00e7a fundamental: a fragilidade dos per\u00edodos de vida chamados inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia. Nesse momento da vida do ser humano, em que o c\u00e9rebro, sobretudo em seu n\u00edvel bioqu\u00edmico e microarquitetural, ainda est\u00e1 em desenvolvimento, h\u00e1 um maior risco de tais exposi\u00e7\u00f5es causarem danos ainda mais graves; o risco de depend\u00eancia \u00e9 consideravelmente maior.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno das bets, com suas propagandas apelativas, infelizmente vem pra ficar. O poder financeiro que eles salientam limita qualquer tipo de argumenta\u00e7\u00e3o por mais bem-intencionada e correta que seja. Inclusive, j\u00e1 h\u00e1 grandes clubes de futebol brasileiros que recebem patroc\u00ednios alt\u00edssimos desses grupos, de forma que eles j\u00e1 conseguiram ser indispens\u00e1veis para tais clubes.<\/p>\n<p>Contudo, h\u00e1 muito o que se fazer! Compreender que o jogo pode se tornar um transtorno, um comportamento patol\u00f3gico \u00e9 fundamental; psicoeducar pais sobre os riscos prementes \u00e0 inf\u00e2ncia e \u00e0 adolesc\u00eancia \u00e9 imprescind\u00edvel; tratar os adictos \u00e9 poss\u00edvel (existe tratamento!); prevenir, claro, sempre \u00e9 melhor. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 que se definir regras e leis muito r\u00edgidas para tentar diminuir os danos relacionados. Da mesma forma que tivemos algum sucesso com o cigarro e o \u00e1lcool, n\u00e3o ser\u00e1 imposs\u00edvel que, balizados pelos estudos da ci\u00eancia, possamos diminuir os riscos aos \u201cnovos adictos\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Pinheiro, m\u00e9dico psiquiatra Para quem tem mais de 40 anos, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil lembrar as \u201csaudosas\u201d propagandas de cigarro. 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