{"id":828,"date":"2025-11-29T08:00:26","date_gmt":"2025-11-29T11:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/?p=828"},"modified":"2025-11-28T14:25:11","modified_gmt":"2025-11-28T17:25:11","slug":"estudo-mostra-que-portugueses-chegaram-ao-brasil-pelo-litoral-do-rn","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/828\/","title":{"rendered":"Estudo mostra que portugueses chegaram ao Brasil pelo litoral do RN"},"content":{"rendered":"<p>Novas pesquisas reacenderam o debate sobre o local exato onde a esquadra de Pedro \u00c1lvares Cabral aportou em abril de 1500, na terra que viria a se chamar Brasil. A partir de an\u00e1lises num\u00e9ricas da carta de Pero Vaz de Caminha, aliadas a expedi\u00e7\u00f5es de campo, o movimento de reabertura do debate, provocado pela f\u00edsica e a revis\u00e3o minuciosa da carta de Caminha, reacende questionamentos sobre um dos epis\u00f3dios fundadores da hist\u00f3ria brasileira e coloca o Rio Grande do Norte no centro dessa disputa narrativa que pode redesenhar a pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o do \u201cDescobrimento do Brasil\u201d.<\/p>\n<p>O estudo mais recente, publicado no Journal of Navigation, da Universidade de Cambridge, foi conduzido pelos f\u00edsicos Carlos Chesman (UFRN) e Cl\u00e1udio Furtado (UFPB). Eles catalogaram os dados num\u00e9ricos da carta de Caminha e os correlacionaram com rotas prov\u00e1veis, ventos, correntes mar\u00edtimas e observa\u00e7\u00f5es feitas em expedi\u00e7\u00f5es no litoral do RN. Chesman afirma que a equipe cruzou documentos e medi\u00e7\u00f5es para reconstruir o trajeto descrito: \u201cO que a gente fez foi algo interdisciplinar. A gente pegou um documento hist\u00f3rico e fomos analisar os dados da parte que a gente domina, que s\u00e3o exatamente os dados num\u00e9ricos\u201d.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, as evid\u00eancias apontam que a trajet\u00f3ria que Cabral fez, partindo de Cabo Verde at\u00e9 visualizar sinais de terra, corresponde a 4 mil quil\u00f4metros nas unidades atuais. \u201cSe voc\u00ea fizer uma rota usando mapas de hoje, seguindo os ventos, saindo da regi\u00e3o do Cabo Verde, corresponde exatamente \u00e0 chegada no litoral do Rio Grande do Norte. Essa \u00e9 a primeira evid\u00eancia num\u00e9rica\u201d, explica.<\/p>\n<p>A segunda evid\u00eancia num\u00e9rica do estudo tamb\u00e9m se baseia na carta de Pero Vaz de Caminha quando \u00e9 descrito que o monte (Pascoal) foi visto a, aproximadamente, 40 quil\u00f4metros do litoral. A expedi\u00e7\u00e3o de Chesman partiu ent\u00e3o para o mar at\u00e9 essa mesma dist\u00e2ncia e fotografou o que se via a olho nu, tendo em vista que em 1500 n\u00e3o havia lunetas, nem telesc\u00f3pios. \u201cA gente conseguiu visualizar o que est\u00e1 descrito na carta: um monte muito alto e arredondado e outros ao sul \u00e0 esquerda. \u00c9 exatamente essa descri\u00e7\u00e3o que Pero Vaz escreveu\u201d, destaca o pesquisador.<\/p>\n<p>Dentro dessa perspectiva da chegada dos portugueses primeiramente no RN, a vis\u00e3o difere do que se cogitava anteriormente. O monte descrito n\u00e3o se trata do Pico Cabugi, que tamb\u00e9m pode ser visto pelo mar no litoral norte potiguar, segundo Chesman. \u201cA forma\u00e7\u00e3o pontiaguda n\u00e3o est\u00e1 descrita na carta e por isso n\u00e3o corresponde nem ao Pico Cabugi nem ao monte da Bahia, que tem formato de pico. O estudo de topografia que a gente fez aponta para o Monte Serra Verde, em Jo\u00e3o C\u00e2mara\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do relevo, a equipe analisou dados de batimetria descritos por Caminha. Essas informa\u00e7\u00f5es, que relacionam profundidade e dist\u00e2ncia da costa, permitem inferir a aproxima\u00e7\u00e3o da esquadra. Para Chesman, esse conjunto de dados tamb\u00e9m converge para o litoral potiguar. \u201cCom essa batimetria, a gente fez tr\u00eas rotas: duas aqui e uma l\u00e1 na Bahia. As duas rotas mais pr\u00f3ximas s\u00e3o exatamente aqui\u201d, explica.<\/p>\n<p>A pesquisa refere-se ainda ao marco portugu\u00eas fincado na atual praia do Marco, em Pedra Grande, datado de 1501. Segundo o pesquisador, esse vest\u00edgio refor\u00e7a a hip\u00f3tese potiguar, com base em documentos levantados pelo escritor e pesquisador Manoel Neto Cavalcanti. \u201cEnt\u00e3o, o marco existir aqui \u00e9 um fato a favor da passagem de Cabral por aqui antes de chegar para fazer o povoamento l\u00e1 em Porto Seguro\u201d, atesta Chesman.<\/p>\n<p>O escritor Manoel Cavalcanti, que h\u00e1 d\u00e9cadas estuda a carta de Caminha e lan\u00e7ou obras sobre o tema, tamb\u00e9m refor\u00e7a seu posicionamento sobre a chegada de Cabral ao Rio Grande do Norte. Para ele, a an\u00e1lise precisa do documento original tem sido prejudicada por tradu\u00e7\u00f5es equivocadas e interpreta\u00e7\u00f5es distorcidas. \u201cA carta \u00e9 o \u00fanico documento realmente certificado escrito no palco do acontecimento, mas h\u00e1 muitas distor\u00e7\u00f5es a respeito disso. Por exemplo, onde n\u00e3o tinha v\u00edrgula, colocaram, o que altera a interpreta\u00e7\u00e3o\u201d, diz. Ele argumenta que pequenas altera\u00e7\u00f5es mudam sentidos e comprometem interpreta\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>O escritor ressalta que a nova vers\u00e3o dos fatos agora tamb\u00e9m \u00e9 respaldada pela ci\u00eancia com a pesquisa dos f\u00edsicos Chesman e Furtado, mas o debate enfrenta resist\u00eancia, muitas vezes por rejei\u00e7\u00e3o pr\u00e9via. \u201cAs pessoas muitas vezes criticam pelo simples fato de ser do contra\u201d, afirma.<\/p>\n<p><strong>Impactos<\/strong><\/p>\n<p>Manoel Cavalcanti acredita que, uma vez aceita e oficializada, a vers\u00e3o do descobrimento do Brasil pelo Rio Grande do Norte poderia trazer benef\u00edcios econ\u00f4micos ao estado, al\u00e9m do reconhecimento de sua import\u00e2ncia hist\u00f3rica. \u201cA regi\u00e3o de Porto Seguro tem cerca de 70 mil leitos, ou seja, a hist\u00f3ria movimenta o turismo com cerca de 1 bilh\u00e3o de reais por ano. Se explor\u00e1ssemos somente o nosso Marco de Touros, 10% disso significaria 100 milh\u00f5es incrementados no turismo\u201d, estima.<\/p>\n<p>O estudo potiguar contraria a interpreta\u00e7\u00e3o oficializada desde o s\u00e9culo XIX, quando o Visconde de Porto Seguro definiu a Bahia como ponto de chegada com base em um documento do mestre Jo\u00e3o, que mencionava latitude aproximada de 17 graus.<\/p>\n<p>Apesar do avan\u00e7o cient\u00edfico, o pesquisador Carlos Chesman ressalta que a consolida\u00e7\u00e3o da nova interpreta\u00e7\u00e3o depende do debate acad\u00eamico. \u201cA maioria \u00e9 quem vai dizendo se algo realmente \u00e9 verdadeiro\u201d, diz. Um col\u00f3quio cient\u00edfico para debater o estudo est\u00e1 sendo organizado por Chesman para o ano que vem, no Rio Grande do Norte.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/tribunadonorte.com.br\/natal\/estudo-mostra-que-portugueses-chegaram-ao-brasil-pelo-litoral-do-rn\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tribuna do Norte<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Novas pesquisas reacenderam o debate sobre o local exato onde a esquadra de Pedro \u00c1lvares Cabral aportou em abril de 1500, na terra que viria a se chamar Brasil. 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