{"id":867,"date":"2025-12-05T11:13:16","date_gmt":"2025-12-05T14:13:16","guid":{"rendered":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/?p=867"},"modified":"2025-12-06T15:40:13","modified_gmt":"2025-12-06T18:40:13","slug":"geraldo-pinheiro-e-assim-caminha-a-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/867\/","title":{"rendered":"Geraldo Pinheiro: e assim caminha a ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Vou lhes contar aqui uma hist\u00f3ria que \u00e9 bastante ilustrativa para entender como funciona a ci\u00eancia. Sabemos que o c\u00e9rebro humano \u00e9 constitu\u00eddo basicamente de dois tipos de c\u00e9lulas: os neur\u00f4nios e as chamadas c\u00e9lulas da glia.<\/p>\n<p>Esse conhecimento foi estabelecido h\u00e1 mais de um s\u00e9culo quando estudiosos como Santiago Ram\u00f3n y Cajal e Camillo Golgi se debru\u00e7aram sobre excertos do c\u00e9rebro e o estudaram com o aux\u00edlio de microsc\u00f3pios e prepara\u00e7\u00f5es apropriadas de colora\u00e7\u00e3o. Para alguns, ali estavam sendo dados os primeiros passos da neuroci\u00eancia.<\/p>\n<p>Os neur\u00f4nios s\u00e3o as c\u00e9lulas mais importantes a compor o nosso c\u00e9rebro. Por\u00e9m, principalmente nas \u00faltimas d\u00e9cadas, reconhece-se que as c\u00e9lulas da glia s\u00e3o mais importantes do que se imaginava. Nas primeiras observa\u00e7\u00f5es, os estudiosos imaginaram que elas serviriam apenas para preencher espa\u00e7os e dar sustenta\u00e7\u00e3o aos neur\u00f4nios, servindo como uma esp\u00e9cie de cola para melhor preencher os espa\u00e7os.<br \/>\nDa\u00ed o nome que foi dado: em grego, \u201cglia\u201d quer dizer cola. Por\u00e9m, nos tempos atuais, cada vez mais descobrem-se fun\u00e7\u00f5es important\u00edssimas relacionadas a esse grupo de c\u00e9lulas.<\/p>\n<p>Entretanto, \u00e9 indubit\u00e1vel que os neur\u00f4nios \u00e9 que s\u00e3o as mais importantes c\u00e9lulas; s\u00e3o os neur\u00f4nios que fazem a nossa mente ser o que \u00e9. Durante muito tempo, houve, no mundo da neuroci\u00eancia, uma esp\u00e9cie de dogma, que afirmava que o c\u00e9rebro humano possuiria 100 bilh\u00f5es de neur\u00f4nios \u2013 um n\u00famero extraordin\u00e1rio. H\u00e1 inclusive um livro b\u00e1sico de neuroci\u00eancia chamado \u201ccem bilh\u00f5es de neur\u00f4nios\u201d, escrito pelo neurocientista brasileiro Roberto Lent. Este livro faz parte das primeiras leituras de qualquer estudante de medicina e de qualquer estudante de neuroci\u00eancias.<\/p>\n<p>Acontece que uma outra neurocientista brasileira \u2013 Suzana Heculano-Houzel \u2013 questionou Roberto Lent sobre de onde ele tirara essa informa\u00e7\u00e3o \u2013 de que o c\u00e9rebro humano teria 100 bilh\u00f5es de neur\u00f4nios. Roberto Lent conta essa hist\u00f3ria na segunda edi\u00e7\u00e3o do seu livro e a repete na terceira edi\u00e7\u00e3o, publicada em 2022. Vale a pena l\u00ea-la: \u201cDurante a elabora\u00e7\u00e3o da primeira edi\u00e7\u00e3o deste livro, minha colega Suzana Herculano-Houzel questionou o t\u00edtulo que eu havia pensado para o livro: \u201cCem Bilh\u00f5es de Neur\u00f4nios\u201d. Quais as evid\u00eancias para esse n\u00famero? \u2013 perguntou. A pergunta instigante me pegou de jeito: embora todos os livros e artigos admitissem esse n\u00famero, n\u00e3o conseguimos encontrar quem houvesse contado de fato o n\u00famero absoluto de c\u00e9lulas existentes no sistema nervoso.\u201d<\/p>\n<p>A dificuldade inicial de contar quantos neur\u00f4nios existem no nosso c\u00e9rebro surge do padr\u00e3o n\u00e3o homog\u00eaneo de distribui\u00e7\u00e3o desses neur\u00f4nios no c\u00e9rebro. As mais diversas regi\u00f5es do c\u00e9rebro t\u00eam densidades diferentes de neur\u00f4nios. Se, pelo contr\u00e1rio, a densidade neuronal no c\u00e9rebro fosse sempre a mesma para todas as regi\u00f5es cerebrais, bastaria que soub\u00e9ssemos a quantidade de neur\u00f4nios em uma<br \/>\npequena regi\u00e3o para obtermos a quantidade total estabelecendo uma propor\u00e7\u00e3o simples. Por\u00e9m, Suzana \u2013 a cientista questionadora! \u2013 inventou um m\u00e9todo de contar neur\u00f4nios! Na verdade, ela inventou um m\u00e9todo para contar n\u00facleos de neur\u00f4nios.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, como cada neur\u00f4nio tem apenas um n\u00facleo, se contarmos quantos n\u00facleos de neur\u00f4nios h\u00e1 em um c\u00e9rebro, tamb\u00e9m estaremos contando quantos neur\u00f4nios existem nesse c\u00e9rebro. Dito em poucas palavras, a estrat\u00e9gia de Suzana foi a seguinte: tomar um c\u00e9rebro e tritur\u00e1-lo, transformando-o em uma \u201csopa\u201d de n\u00facleos. Naquela sopa, haver\u00e1 n\u00facleos de neur\u00f4nios e tamb\u00e9m n\u00facleo das c\u00e9lulas da glia. Entretanto, atrav\u00e9s de m\u00e9todos qu\u00edmicos simples, h\u00e1 como distinguir \u2013 dentre aqueles n\u00facleos \u2013 quais s\u00e3o os de neur\u00f4nios e quais s\u00e3o os de c\u00e9lulas da glia.<\/p>\n<p>Desta forma, em cada amostra desta \u201csopa\u201d de n\u00facleos, temos uma distribui\u00e7\u00e3o homog\u00eanea, isto \u00e9, temos a mesma quantidade de n\u00facleos para o mesmo volume analisado. Ent\u00e3o, se soubermos quantos n\u00facleos h\u00e1 em um certo volume, atrav\u00e9s de uma propor\u00e7\u00e3o simples, saberemos quantos n\u00facleos haver\u00e1 no volume total.<\/p>\n<p>A pesquisadora conseguiu, por esse m\u00e9todo, n\u00e3o s\u00f3 contar quantos neur\u00f4nios existem no c\u00e9rebro humano, mas tamb\u00e9m contar quantas c\u00e9lulas da glia. Os c\u00e9rebros estudados por ela eram de pessoas que tinham entre 50 e 70 anos e o resultado foi o seguinte: para essa faixa et\u00e1ria, o c\u00e9rebro humano possui, em m\u00e9dia, 85 bilh\u00f5es de neur\u00f4nios. Para sabermos o n\u00famero de neur\u00f4nios em outras faixas et\u00e1rias, precisar\u00edamos fazer o estudo para essas outras faixas et\u00e1rias. Enquanto n\u00e3o o fizermos, n\u00e3o podemos afirmar nada a n\u00e3o ser elaborar suposi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A pesquisa desta neurocientista brasileira \u00e9 revolucion\u00e1ria! Na minha humilde opini\u00e3o, ela merecia ganhar o Nobel de Medicina e Fisiologia. O que ela fez n\u00e3o foi s\u00f3 contar neur\u00f4nios; esse foi apenas o primeiro passo. Ela tamb\u00e9m identificou a propor\u00e7\u00e3o entre neur\u00f4nios e c\u00e9lulas da glia; observou a distribui\u00e7\u00e3o quantitativa dos neur\u00f4nios nas diversas regi\u00f5es cerebrais; e ela tamb\u00e9m pode estabelecer compara\u00e7\u00f5es entre as quantidades de neur\u00f4nios entre os seres humanos e outros primatas. Isso possibilitou o surgimento de outros insights na compreens\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o humana, na compreens\u00e3o de como esse ser humano est\u00e1 inserido dentre outros animais e na compreens\u00e3o do que \u00e9 o ser humano.<\/p>\n<p>O que Suzana fez inicialmente foi apenas questionar; verificar se havia ou n\u00e3o evid\u00eancias sobre aquela declara\u00e7\u00e3o. O verdadeiro cientista \u00e9 sempre um questionador. Na Ci\u00eancia, n\u00e3o pode haver dogmas. Tudo \u00e9 question\u00e1vel, investig\u00e1vel. O cientista, acima de tudo, \u00e9 um sujeito humilde no sentido de perceber e entender que ele pode estar errado. O cientista deve sempre estar disposto a rever seus conceitos, propor novas pesquisas para verificar se as conclus\u00f5es a que chegou est\u00e3o corretas ou se h\u00e1 alguma chance de erro, engano. Na Ci\u00eancia, n\u00e3o h\u00e1 argumento de autoridade. Mesmo o mais famoso e renomado cientista ter\u00e1 que demonstrar, atrav\u00e9s de estudos s\u00e9rios e replic\u00e1veis, as suas afirma\u00e7\u00f5es. Se n\u00e3o o fizer, a sua \u201cautoridade\u201d de nada servir\u00e1 nas credita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que a descoberta de Suzana \u00e9 espetacular. Mas \u00e9 claro tamb\u00e9m que deixou o Roberto Lent pensativo quanto ao t\u00edtulo da segunda edi\u00e7\u00e3o de sua obra. Vejamos o que ele escreveu: \u201cA descoberta colocou-me um dilema: devo ou n\u00e3o devo mudar o t\u00edtulo do livro? J\u00e1 estava decidido a mudar, quando lembrei de um perfeito \u00e1libi para manter esse t\u00edtulo euf\u00f4nico. A composi\u00e7\u00e3o celular do c\u00e9rebro de pessoas mais jovens talvez leve de volta a composi\u00e7\u00e3o absoluta do sistema nervoso humano aos cem bilh\u00f5es de neur\u00f4nios\u2026 Ser\u00e1?\u201d<\/p>\n<p>O resultado das reflex\u00f5es do Roberto Lent foi o seguinte: a segunda e a terceira edi\u00e7\u00f5es do seu livro vieram com o seguinte t\u00edtulo: cem bilh\u00f5es de neur\u00f4nios?<\/p>\n<p>Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.novonoticias.com.br\/geraldo-pinheiro-e-assim-caminha-a-ciencia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Novo Not\u00edcias <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vou lhes contar aqui uma hist\u00f3ria que \u00e9 bastante ilustrativa para entender como funciona a ci\u00eancia. 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