{"id":96,"date":"2025-09-12T19:09:59","date_gmt":"2025-09-12T19:09:59","guid":{"rendered":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/?p=96"},"modified":"2025-09-12T19:09:59","modified_gmt":"2025-09-12T19:09:59","slug":"quem-tem-medo-de-remedio-controlado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/96\/","title":{"rendered":"Quem tem medo de rem\u00e9dio controlado?"},"content":{"rendered":"<p>Um dos dilemas mais frequentes num consult\u00f3rio de psiquiatria \u00e9 a resist\u00eancia ao uso dos medicamentos por parte dos pacientes. \u00c9 verdade que essa resist\u00eancia possui diversas origens, mas acredito que duas s\u00e3o as raz\u00f5es principais: 1) a impress\u00e3o (equivocada) de que todos os psicof\u00e1rmacos (denominamos psicof\u00e1rmacos a todos os medicamentos que agem no sistema nervoso central; os ditos medicamentos psiqui\u00e1tricos s\u00e3o os psicof\u00e1rmacos; uma outra denomina\u00e7\u00e3o \u00e9 a de psicotr\u00f3picos) s\u00e3o virtualmente iguais, ou muito semelhantes e que todos causam seda\u00e7\u00e3o (na linguagem popular, \u201cdopam\u201d o sujeito que os usa); e 2) a ideia de que, ao tomar um psicotr\u00f3pico, o sujeito deixa de ser ele mesmo para ser uma vers\u00e3o da pr\u00f3pria pessoa modificada por uma subst\u00e2ncia qu\u00edmica. O presente texto pretende abordar as duas percep\u00e7\u00f5es. Comecemos pela primeira.<\/p>\n<p>Se fosse verdadeira a impress\u00e3o de que todos os psicof\u00e1rmacos s\u00e3o sopor\u00edferos, seria mais do que justa a resist\u00eancia observada nos pacientes em rela\u00e7\u00e3o a tais medicamentos. \u00c9 poss\u00edvel que essa impress\u00e3o acerca dos psicotr\u00f3picos seja oriunda de uma outra falsa impress\u00e3o: a de que todos os portadores de um transtorno mental s\u00e3o agitados e\/ou agressivos. Imagino que o senso comum elabora a seguinte conclus\u00e3o: se os portadores de uma doen\u00e7a mental s\u00e3o agressivos e\/ou agitados, os medicamentos utilizados para estabiliz\u00e1-los dever\u00e3o ser todos calmantes, sedativos, hipn\u00f3ticos.<\/p>\n<p>Entretanto, nenhuma das caracter\u00edsticas citadas acima \u00e9 verdadeira: nem \u00e9 verdade que todos os pacientes psiqui\u00e1tricos s\u00e3o agitados\/agressivos; nem \u00e9 verdade que todos os medicamentos da Psiquiatria causam sonol\u00eancia, assim como tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 verdade que os psicof\u00e1rmacos s\u00e3o um grupo homog\u00eaneo de medicamentos, no sentido de causarem os mesmos efeitos terap\u00eauticos e os mesmos efeitos colaterais.<\/p>\n<p>Vejamos o exemplo da depress\u00e3o. Os pacientes que apresentam uma s\u00edndrome depressiva s\u00e3o, em geral, quietos (\u00e9 preciso deixar claro que \u00e9 poss\u00edvel um paciente com depress\u00e3o apresentar agita\u00e7\u00e3o psicomotora, mas \u00e9 mais frequente que esse paciente n\u00e3o apresente esse sintoma e sim uma diminui\u00e7\u00e3o da atividade psicomotora). O paciente deprimido, em geral, n\u00e3o tem vontade de fazer nada, nem de falar com ningu\u00e9m, quer ficar apenas no seu canto, sem elaborar intera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Prescrever, para esse paciente, um sedativo, seria um total contrassenso; tal medicamento iria manter esse paciente cada vez mais recluso, seria mais dif\u00edcil para ele ter \u00e2nimo para fazer as coisas, interagir com as pessoas. Os psicof\u00e1rmacos denominados antidepressivos procuram auxiliar o paciente no reencontro com a motiva\u00e7\u00e3o, com a vontade de fazer as coisas e o prazer em faz\u00ea-las. Nesse sentido, n\u00e3o s\u00e3o sedativos. A ideia por tr\u00e1s da elabora\u00e7\u00e3o de um medicamento e por quem o prescreve \u00e9 ajudar as pessoas.<\/p>\n<p>Vejamos ainda o exemplo de uma outra condi\u00e7\u00e3o denominada TDAH: Transtorno do D\u00e9ficit de Aten\u00e7\u00e3o e Hiperatividade. Os portadores de TDAH se dividem em tr\u00eas grupos: h\u00e1 aqueles que apresentam apenas o d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o; h\u00e1 aqueles que apresentam apenas a hiperatividade (a sigla do transtorno n\u00e3o cont\u00e9m a palavra \u201cimpulsividade\u201d, mas a hiperatividade \u00e9, com frequ\u00eancia, acompanhada pela impulsividade); e h\u00e1 aqueles que apresentam tanto o d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o, como a hiperatividade. Grosso modo, um indiv\u00edduo portador de hiperatividade se caracteriza por apresentar, de forma praticamente constante \u2013 mostrando-se quase como um \u201cjeito de ser\u201d da pessoa \u2013, necessidade de atividades motoras e\/ou ps\u00edquicas e essa caracter\u00edstica traz sofrimento e\/ou preju\u00edzo em sua funcionalidade. Em outras palavras, o sujeito precisa estar se mexendo, fazendo algo, ou pensando em algo \u2013 caracterizando-se assim a hiperatividade, que pode ser motora e\/ou ps\u00edquica.<\/p>\n<p>Pois bem, a principal terapia farmacol\u00f3gica para essa condi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma classe de medicamentos ditos psicoestimulantes. Acredito que o senso comum ter\u00e1 dificuldade em entender como \u00e9 que um indiv\u00edduo que tem \u201chiperatividade\u201d se beneficiar\u00e1 de um estimulante do sistema ps\u00edquico. N\u00e3o cabe aqui explicar o mecanismo de a\u00e7\u00e3o do medicamento, mas o fato \u00e9 que, com o tal psicoestimulante, o indiv\u00edduo passa a ter uma necessidade, em termos quantitativos, dita \u201cnormal\u201d de fazer coisas e\/ou de pensar. Ele melhora da hiperatividade e, desta forma, consegue se organizar melhor, completar suas tarefas e, com isso, tende a melhorar o sofrimento mental. E, mais uma vez, de forma alguma, esse medicamento tem caracter\u00edsticas sedativas. Na verdade, ele pode ser \u00fatil, em associa\u00e7\u00e3o aos antidepressivos, no<br \/>\ntratamento da depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Verifico, na minha pr\u00e1tica cl\u00ednica, que, quando o paciente compreende a a\u00e7\u00e3o, o efeito esperado do medicamento que est\u00e1 sendo prescrito, o preconceito inicial em rela\u00e7\u00e3o aos psicotr\u00f3picos \u2013 de que todos causam sonol\u00eancia \u2013 \u00e9 desconstru\u00eddo. Cabe ao profissional que prescreve dedicar tempo \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o sobre os medicamentos.<\/p>\n<p>Desta forma, o paciente se sentir\u00e1 mais motivado a usar o medicamento. Falemos agora sobre a outra raz\u00e3o para a avers\u00e3o aos psicotr\u00f3picos: a de que, ao usar um psicotr\u00f3pico, a pessoa est\u00e1 deixando de ser ela mesma.<\/p>\n<p>Eu costumo dizer que, para tudo (ou quase tudo) nesta vida, podemos elaborar diversos olhares, percep\u00e7\u00f5es, interpreta\u00e7\u00f5es. Esse olhar, de que fazer uso de um psicotr\u00f3pico \u00e9 modificar o jeito de ser de uma pessoa, \u00e9 apenas uma forma de olhar para essa situa\u00e7\u00e3o. Incomodar-se com essa percep\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas uma forma de perceber toda essa configura\u00e7\u00e3o. Mas esta n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica maneira de ver tudo isso.<\/p>\n<p>Um sujeito deprimido j\u00e1 \u00e9 uma pessoa modificada \u2013 modificada pela depress\u00e3o. Antes o indiv\u00edduo cuidava da pr\u00f3pria higiene, relacionava-se adequadamente com as pessoas, trabalhava regularmente, tinha interesse em participar de atividades de lazer, etc. Agora, acometido pela depress\u00e3o, ele se transformou numa outra vers\u00e3o dele mesmo. \u00c9 o \u201ceu dele deprimido\u201d. N\u00e3o mais cuida de si mesmo, n\u00e3o consegue mais sair de casa para trabalhar, nem tem vontade de falar com as pessoas, nem sente prazer naquelas atividades antes prazerosas. O medicamento \u2013 juntamente com as outras important\u00edssimas terapias n\u00e3o farmacol\u00f3gicas (psicoterapia, atividade f\u00edsica, etc) \u2013 tentar\u00e1 resgatar esse \u201ceu perdido\u201d.<\/p>\n<p>As terap\u00eauticas que se prop\u00f5em buscar\u00e3o a reabilita\u00e7\u00e3o do sujeito a voltar o que ele era, o que ele sempre foi. As estrat\u00e9gias de tratamento (e os medicamentos est\u00e3o inclusos nessa lista de estrat\u00e9gias) buscar\u00e3o facilitar a retomada da funcionalidade e a diminui\u00e7\u00e3o do sofrimento.<\/p>\n<p>Como em tudo nessa vida e, na psiquiatria n\u00e3o \u00e9 diferente, existem hist\u00f3rias de sucesso e hist\u00f3rias de fracasso. Diante de um paciente portador de sofrimento mental, n\u00f3s, profissionais da sa\u00fade mental (psiquiatras, psic\u00f3logos, terapeutas ocupacionais, etc.) queremos diminuir esse sofrimento e facilitar que a funcionalidade desse sujeito seja retomada. Para isso, lan\u00e7amos m\u00e3o das ferramentas de que dispomos e que sabemos ser eficazes. Entretanto, como dissemos no in\u00edcio desse par\u00e1grafo, h\u00e1 hist\u00f3rias de sucesso e de fracasso; n\u00e3o h\u00e1 perfei\u00e7\u00e3o nas obras humanas. Por\u00e9m, quando se trabalha com transpar\u00eancia, com esclarecimento das informa\u00e7\u00f5es e com desmoronamento de preconceitos, os caminhos tendem a ser favor\u00e1veis. O movimento de encontro entre o ser humano que sofre e o profissional atencioso, respons\u00e1vel, competente e esclarecedor dos modos de trabalho tende a ser um encontro prof\u00edcuo e gerador de belas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"internal-single__author\">Por: Geraldo Pinheiro, m\u00e9dico psiquiatra<\/p>\n<p class=\"internal-single__date\">Publicado 9 de setembro de 2025 \u00e0s 16:15 em <a href=\"https:\/\/www.novonoticias.com.br\/geraldo-pinheiro-quem-tem-medo-de-remedio-controlado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.novonoticias.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos dilemas mais frequentes num consult\u00f3rio de psiquiatria \u00e9 a resist\u00eancia ao uso dos medicamentos por parte dos pacientes. \u00c9 verdade que essa resist\u00eancia possui diversas origens, mas acredito&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":97,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[33],"tags":[],"class_list":["post-96","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":98,"href":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96\/revisions\/98"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}