{"id":963,"date":"2025-12-25T08:00:03","date_gmt":"2025-12-25T11:00:03","guid":{"rendered":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/?p=963"},"modified":"2025-12-25T00:23:23","modified_gmt":"2025-12-25T03:23:23","slug":"geraldo-pinheiro-o-clonazepam-e-as-fracoes-a-importancia-da-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/puxandoassunto.com.br\/site\/963\/","title":{"rendered":"Geraldo Pinheiro: o clonazepam e as fra\u00e7\u00f5es (a import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Se a pessoa n\u00e3o compreender o que estamos querendo explicar, ela n\u00e3o \u00e9 a culpada. N\u00f3s \u00e9 que devemos utilizar uma linguagem mais acess\u00edvel, sermos mais did\u00e1ticos para que a compreens\u00e3o aconte\u00e7a<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunca me esqueci de um ocorrido quando ainda estava nos primeiros dias de atividade como m\u00e9dico. Estou sentado na sala de atendimento e chamo a pr\u00f3xima paciente: \u201cpode entrar, Dona Maria (nome fict\u00edcio). Pois n\u00e3o, dona Maria, como a senhora est\u00e1 se sentindo hoje\u201d. Ent\u00e3o ela come\u00e7a a me contar a sua rotina di\u00e1ria, seus achaques reumatol\u00f3gicos e o uso di\u00e1rio de um medicamento chamado clonazepam. \u201cAh, doutor, queria parar de tomar esse rem\u00e9dio um dia; mas eu vou conseguir, se Deus quiser. Venho diminuindo a quantidade. No momento, estou tomando apenas meia banda dele\u201d. Eu n\u00e3o sabia que, neste momento, estava prestes a iniciar uma profunda discuss\u00e3o com Dona Maria sobre as fra\u00e7\u00f5es\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAh, Dona Maria, que bom que a senhora est\u00e1 tentando tirar esse medicamento\u201d. O clonazepam \u00e9 um medicamento \u00fatil, com seus problemas e benef\u00edcios. De uma forma geral, o maior problema (n\u00e3o o \u00fanico, registre-se) em rela\u00e7\u00e3o a este medicamento em espec\u00edfico \u00e9 o seu uso por longos per\u00edodos. \u00c9 claro que existem medicamentos (psiqui\u00e1tricos e n\u00e3o-psiqui\u00e1tricos) que devem ser tomados por toda a vida, mas existem outros f\u00e1rmacos (psiqui\u00e1tricos e n\u00e3o-psiqui\u00e1tricos) que devem ser tomados apenas por um per\u00edodo circunscrito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensando que uma \u201cbanda\u201d de um comprimido referir-se-ia \u00e0 metade de um comprimido (meio comprimido), conclu\u00ed: \u201cent\u00e3o quer dizer que a senhora est\u00e1 tomando apenas um quarto do comprimido\u201d, pois meia banda \u2013 no meu racioc\u00ednio \u2013 seria a metade de uma banda; em outras palavras, seria a metade da metade de um comprimido inteiro. Nesse momento, ela fez uma express\u00e3o facial de d\u00favida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o, doutor, \u00e9 meia banda\u201d, disse ela. Muito interessado em entender e em me fazer entender, apressei-me a pegar um papel e uma caneta para desenhar. Desenhei um comprimido qualquer, arredondado e disse: \u201cveja isso aqui, Dona Maria, imagine que isso \u00e9 o comprimido\u201d, apontado para o desenho circular. \u201cAgora, vamos parti-lo no meio; quando fazemos isso, temos duas bandas do comprimido\u201d; disse isso e, ao mesmo tempo, estava fazendo outro desenho em baixo, com duas meias-luas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAgora, ao partirmos cada uma dessas bandinhas, temos a meia banda que a senhora toma, n\u00e9 isso?\u201d De forma inesperada, aquela minha atitude, em vez de trazer esclarecimento para a situa\u00e7\u00e3o, na verdade, deixou a minha paciente mais confusa. Por\u00e9m, sol\u00edcita, tentou fazer-se entender. Ficou ela em d\u00favida sobre o que, na pr\u00e1tica, estava fazendo com o comprimido l\u00e1 na sua rotina di\u00e1ria de uso de medicamentos e, no final das contas, aproveitou o meu desenho e apontou para uma das meias-luas que eu j\u00e1 fizera e disse: \u201cveja, doutor, eu tomo isso aqui, meia banda\u201d, confirmou e eu entendi que o que ela estava chamando de meia banda era, na verdade, a metade de um comprimido. A origem da confus\u00e3o \u00e9 que, no meu entendimento, um comprimido \u00e9 um comprimido. Quando dividido na metade, ele se transforma em duas bandas. Por\u00e9m, no entendimento dessa paciente, quando um comprimido \u00e9 dividido na metade, ele se transforma em duas meias bandas\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Percebi que essa forma diferente de nomear as fra\u00e7\u00f5es se repete na mentalidade de muitos outros pacientes e, em cada atendimento, j\u00e1 trago na minha mem\u00f3ria os acontecidos daquele primeiro epis\u00f3dio. Claro que sempre fa\u00e7o um desenho para confirmar se o que o paciente est\u00e1 chamando de meia banda \u00e9 mesmo o que eu chamo de uma banda\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas eu costumo dizer que a gente, enquanto psiquiatra, sempre est\u00e1 pensando em tirar o clonazepam da lista de medicamentos de um paciente. Tamb\u00e9m costumo dizer que precisamos aproveitar as oportunidades para fazer essa retirada; n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel retirar esse medicamento em qualquer momento, de qualquer jeito. E digo ainda que tal retirada deve ser feita na forma de \u201cdesmame\u201d, isto \u00e9, diminuindo-se progressivamente a dose.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns pacientes, motivados em querer retirar o medicamento citado, fazem investidas sem a nossa orienta\u00e7\u00e3o e, na maioria das vezes, evoluem para um insucesso e acabam ficando presos ao medicamento. Exemplos de tais investidas: suspendem o medicamento bruscamente; passam a tomar o medicamento dia sim, dia n\u00e3o; fazem uma redu\u00e7\u00e3o intensa na dose. Como eu disse, ao fazer uma dessas investidas equ\u00edvocas, acabam se sentindo mal e tendem a retornar a usar o medicamento de forma regular e na dose original. O desfecho \u00e9 n\u00e3o conseguirem \u201csair do medicamento\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A melhor estrat\u00e9gia de desmame \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o lenta da dose; claro que essa redu\u00e7\u00e3o precisa ser progressiva para que, em um determinado momento, se chegue \u00e0 \u201cdose zero\u201d. Diminui\u00e7\u00e3o lenta, gradual da dose e uso di\u00e1rio do medicamento em contraposi\u00e7\u00e3o ao uso dia sim, dia n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O clonazepam existe na forma de comprimidos e na forma de solu\u00e7\u00e3o oral (em gotas). Uma boa estrat\u00e9gia de desmame \u00e9 fazer o c\u00e1lculo de equival\u00eancia entre a apresenta\u00e7\u00e3o em formato de comprimidos e a apresenta\u00e7\u00e3o em formato l\u00edquido. Se o paciente est\u00e1 fazendo uso do clonazepam em comprimido \u2013 feito esse c\u00e1lculo de equival\u00eancia \u2013 fazemos o paciente migrar para o formato em gotas porque tal formato \u00e9 o ideal para obtermos o sucesso do desmame: a redu\u00e7\u00e3o gota a gota permite que a redu\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja brusca. Uma gota a menos favorece o paciente a \u201cn\u00e3o sentir falta\u201d daquela dose que foi retirada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem, estava eu atendendo uma outra dona Maria (mais uma vez, nome fict\u00edcio) e nos voltamos para elaborar estrat\u00e9gias para a retirada do famoso clonazepam. Acontece que dona Maria tomava 2 miligramas (mg) por dia de clonazepam. Comecei a falar da estrat\u00e9gia de converter esses 2 mg para gotas porque assim ficaria mais f\u00e1cil o desmame. Logo percebi a express\u00e3o facial de recusa: \u201cn\u00e3o, doutor, j\u00e1 tomei isso em gotas; o gosto \u00e9 horr\u00edvel; eu n\u00e3o vou conseguir; d\u00ea um outro jeito\u201d.<br \/>\nPercebi que dona Maria estava genuinamente querendo tirar o clonazepam, mas tamb\u00e9m percebi que era genu\u00edna a sua ojeriza pelo sabor do medicamento em gotas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ocorre que o clonazepam em comprimido existe no formato de 2 mg e tamb\u00e9m existe no formato de 0,5 mg (ainda existe o clonazepam no formato de 0,25 mg; por\u00e9m, esse clonazepam \u00e9 a formula\u00e7\u00e3o sublingual; esta tem outros objetivos; coloquei essa informa\u00e7\u00e3o apenas para ficar mais completo o texto, mas essa apresenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai entrar nessa hist\u00f3ria). Quando ela me falou de sua experi\u00eancia desagrad\u00e1vel com o sabor das gotas de clonazepam, j\u00e1 comecei a pensar em pedir ajuda do clonazepam de 0,5 mg.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veja: se eu simplesmente orientasse que ela passasse a tomar meio comprimido de 2 mg, eu iria estar orientando uma redu\u00e7\u00e3o na dose de 2 mg para 1 mg; uma redu\u00e7\u00e3o de 50%; essa redu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma redu\u00e7\u00e3o suave, isso n\u00e3o iria dar certo para aquela paciente. Se ela aceitasse a ideia das gotas, eu conseguiria reduzir de 2 mg para 1,9 mg. Seria o ideal! Dificilmente essa estrat\u00e9gia daria errado (\u00e9 claro que reduzir de 2 para 1,9 seria apenas o primeiro passo nesse desmame; outras redu\u00e7\u00f5es viriam\u2026). Por\u00e9m, trabalhando como o que temos, verifiquei que eu conseguiria reduzir a dose de 2 mg para 1,75 mg. Tal redu\u00e7\u00e3o, de 12,5%, \u00e9 bem mais suave do que fazer uma redu\u00e7\u00e3o de 50%, pensei. Coloquei-me a explicar a dona Maria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTudo bem, dona Maria, n\u00e3o vamos passar o clonazepam em gotas para a senhora. Vamos fazer assim: a senhora sabe que existe o clonazepam de 0,5 mg, n\u00e3o \u00e9?\u201d Ela balan\u00e7ou com a cabe\u00e7a que sim. Eu continuei: \u201cpois bem, vamos prescrever para a senhora o clonazepam de 0,5 mg e a senhora vai tomar 3 comprimidos e meio\u201d. Veja: 3 comprimidos de 0,5 mg d\u00e1 uma dose de 1,5 mg; meio comprimido de 0,5 mg d\u00e1 uma dose de 0,25 mg; somando tudo, temos 1,75 mg. Dona Maria disse com uma express\u00e3o facial de estranheza: \u201cdoutor, a gente n\u00e3o ia diminuir esse clonazepam? Eu tomava um comprimidinho de 2, agora o senhor vai passar o de 5 e ainda quer que eu tome 3!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A confus\u00e3o estava armada. Mais uma vez, o problema das fra\u00e7\u00f5es (que \u00e9 uma outra forma de expressar n\u00fameros decimais). Dona Maria n\u00e3o compreendia que 0,5 \u00e9 uma quantidade inferior a 2, inferior a 1. E tamb\u00e9m n\u00e3o compreendia que uma quantidade maior de comprimidos pode significar uma dose menor do medicamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua filha, que estava ao lado, parecia n\u00e3o compreender tamb\u00e9m, mas me pareceu estar disposta a entender. Peguei papel, desenhei, tentei elaborar estrat\u00e9gias did\u00e1ticas para que elas entendessem que 4 comprimidos de 0,5 mg seriam o equivalente a 1 comprimido de 2 mg. Usei express\u00f5es do tipo \u201ccomprimidos fraco\u201d para me referir ao de 0,5 mg em compara\u00e7\u00e3o a \u201ccomprimido forte\u201d para me referir ao de 2 mg. Frisei que o comprimido n\u00e3o era de 5, mas de 0,5.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o foi f\u00e1cil, mas conclu\u00ed aquela consulta acreditando que a filha dela entendeu que ali estava realmente havendo uma redu\u00e7\u00e3o na dose do medicamento. Conto essas hist\u00f3rias n\u00e3o para ridicularizar os pacientes. Claro que n\u00e3o! Nenhum paciente tem a obriga\u00e7\u00e3o de entender as log\u00edsticas por tr\u00e1s das pr\u00e1ticas da medicina e tamb\u00e9m n\u00e3o tem a obriga\u00e7\u00e3o de terem recebido uma alfabetiza\u00e7\u00e3o desta linguagem chamada matem\u00e1tica. N\u00f3s, profissionais, \u00e9 que temos a obriga\u00e7\u00e3o de utilizarmos uma linguagem que esteja ao alcance daquela pessoa que est\u00e1 na nossa frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a pessoa n\u00e3o compreender o que estamos querendo explicar, ela n\u00e3o \u00e9 a culpada. N\u00f3s \u00e9 que devemos utilizar uma linguagem mais acess\u00edvel, sermos mais did\u00e1ticos para que a compreens\u00e3o aconte\u00e7a. Mas \u00e9 claro que, quando esse tipo de coisa acontece \u2013 como os exemplos dados aqui nesse texto \u2013 fica clarividente a import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o, incluindo a compreens\u00e3o da matem\u00e1tica, na vida de uma pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.novonoticias.com.br\/geraldo-pinheiro-o-clonazepam-e-as-fracoes-a-importancia-da-educacao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Novo Not\u00edcias<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se a pessoa n\u00e3o compreender o que estamos querendo explicar, ela n\u00e3o \u00e9 a culpada. 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